segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

A Semiótica do Natal





A comunicação, só a um nível muito simplificado se encaixa naquele modelo linear que todos conhecemos ou ouvimos já falar: fonte-emissor-mensagem-receptor-destinatário. Na realidade, comunicação consiste em por algo em comum, em partilhar. Mas se formos olhar com atenção para aquilo que partilhamos, temos então o estudo dos signos e da significação.

Um signo segundo um autor famoso e um dos grandes sistematizadores da Semiótica C. S. Pierce, é algo que numa determinada situação (contexto) para alguém, está em vez de outra coisa.

No nosso caso, o do Natal, queremos ver que tipos de coisas, (significantes) estão em lugar de que conceitos (significados) e, para que realidades apontam (referentes) estes signos. Digno de referência é também o facto de que estes signos não se interpretam nem se compreendem em si mesmo nem por si mesmos, antes só no conjunto podemos encontrar o valor significativo que têm estes elementos. É principalmente nos contrastes entre signos que podemos encontrar os seu significado. Assim sendo estes conjuntos de signos, estas estruturas se quisermos, formam linguagens de signos, com gramáticas próprias. É muito importante notar que um signo só tem sentido ou pelo menos, só tem um determinado sentido no contexto de uma destas linguagens. Se importarmos um signo de uma linguagem para outra o seu significado pode ser outro completamente diferente ou, mesmo indefinido ie. pode perder de todo o seu sentido.

No nosso caso, o do Natal, a linguagem mais comummente veiculada é a que gira à volta de um personagem gordo, vestido de vermelho com barbas brancas e um gigante saco de presentes. Este individuo, o Pai-Natal, que tem raízes muito remota em São Nicolau, vem de uma terra longínqua a Lapónia, faz-se transportar num trenó com renas e, numa só noite traz felicidade a todas as crianças do mundo, deixando-lhes presentes no sapatinho depois de descer pela chaminé da casa.

Nesta linguagem, o Natal, confunde-se quase por completo com os presentes, com o vermelho garrido do fato do Pai-Natal, com o brilho das luzes e das decorações com comida em especial doçaria em abundância, enfim com uma materialidade comercial, e mercantilista. O Natal neste contexto não deixa de ter as suas semelhanças aos rituais primitivos do Potlatch!
Neste sistema, o significante - luminoso e atraente -, leva directamente e sem esforço algum ao significado e ao referente, a satisfação dos desejos de comer, de ter de mostrar o que se tem, numa lógica onde a matéria é o princípio e fim de toda a quadra. Repare-se também no carácter arbitrário do Natal nesta gramática: "Natal é quando um homem quer"! Porque neste contexto o Natal é algo social, humano e sujeito a quantificação, quanto se gasta quanto se tem.... quanto... quanto....

Ora, na linguagem do Cristianismo o natal não é nada assim! Natal é o Nascimento de Jesus Cristo. É totalmente irrelevante neste caso que Jesus tenha nascido ou não no dia 25 de Dezembro, nós festejamos o Nascimento não a data| Se eu com o tempo me tivesse esquecido de qual o dia em que nasci e, decidisse festejar o meu aniversário no dia X Y ou Z, festejaria, nesse dia o facto de eu ter nascido, e, não de ter nascido nesse dia!

Podemos mais ainda, olhar para as circunstância concretas nas quais Jesus nasceu: num sitio ermo, desconhecido, pouco iluminado, entre animais! Temos o total e completo contraponto do Pai-Natal, uma pessoas que se rodeia da simplicidade, (a começar pelo nascimento) que evita as "luzes da ribalta", mais tarde seria tentado a atirar-se abaixo do pináculo do Templo para provar a sua Procedência Divina e assim poder brilhar à maneira do mundo! Respondeu: "Não tentarás ao Senhor teu Deus"! No seu nascimento escolheu para o saudarem pastores (marginais naquela sociedade), em contraponto com o Pai-Natal que faz a sua entrada de forma espampanante e vistosa com um "Ho-Ho-Ho"!
Jesus, como Presente traz-Se a Si mesmo, Caminho Verdade e Vida! Cristo, traz uma alegria muitíssimo diferente daquela que vimos na outra linguagem, uma alegria baseada no critério: "ama o teu próximo como a ti mesmo", uma alegria baseada nas Suas Palavras que são Pão para saciar não só na noite de 24 mas eternamente!

Nesta Linguagem, falada com o próprio Jesus Cristo que é a Palavra de Deus e portanto o Signo de Deus em pleno, o referente (que é Deus e portanto Jesus) está sempre presente, temos apenas que ouvir e esforçar-mo-nos para construir em nós os significantes que ele oferece gratuitamente a todo o que estiver disposto a ouvir.

Neste sentido Jesus, que nasce em cada um de nós, é uma forma sígnica mais profunda, não só está em lugar de realidades superiores, porque nos conduz a essas realidade - é o caminho, a porta para elas -, mas Ele próprio em em plenitude essa realidade que todos os Homens (frequentemente sem o saberem ) anseiam: Deus!

Natal é quando Jesus nasce!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Censos 2011: nível de escolaridade em Portugal muito baixo




Censos 2011
Um quinto da população portuguesa não tem qualquer nível de ensino

08.12.2011 - 16:10 Por Catarina Gomes



Entre 2001 e 2011 quase duplicou o número de pessoas que passou a ter curso superior – são agora cerca de 1,2 milhões. Esta tendência também se verifica no ensino secundário. Mas, contas feitas, apenas 12% da população possui o ensino superior completo, 13% o secundário, o que contrasta com os 19% da população sem qualquer nível de ensino. São dados provisórios do Censos 2011 ontem divulgados no Instituto Nacional de Estatística (INE), em Lisboa.

O coordenador do Gabinete de Censos do Instituto Nacional de Estatística (INE), Fernando Casimiro, destacou ontem a passagem de 284 mil licenciados em 1991, 674 mil em 2001 e 1,262 milhões de pessoas este ano. São as mulheres quem possui qualificações mais elevadas, sendo 61% dos licenciados do sexo feminino, mas são também as mulheres que predominam no grupo de pessoas sem qualquer escolaridade. Apesar das boas notícias, 19% das pessoas não têm qualquer nível de ensino. O ensino básico do 1.º ciclo corresponde ao nível mais elevado da população – 25%.


Algumas considerações:

- Há, em Portugal, grupos que dizem defender os trabalhadores, em vez de protestarem irracionalmente qualquer medida, corte ou redução esses grupos (PCP/BE/CGTP) deviam considerar que mudar a situação descrita acima é a única maneira de defender os trabalhadores!!!

- A responsabilidade não é só da oposição, também o Governo deve ter (o que já se tornou um chavão) como prioridade defender a competitividade do País, em primeiro lugar e acima de tudo por via da qualificação!

- Os Portugueses em geral devem tomar consciência de que um nível escolar superior é o principal factor de mobilidade social -- quer dizer, para subir na vida --, e não ter um telemóvel ou computador da Apple, um carro maior ou, (segunda) casa própria, estas coisas perfeitamente úteis e legitimas são consequências, não causas da mobilidade social!!!

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A Humildade da Ciência e a Ciência da Humildade











Taken over the centuries, scientific ideas have exerted a force on our civilization fully as great as the more tangible practical applications of scientific research.

Tomadas ao longo dos séculos, as ideias científicas têm exercido um força na nossa civilização inteiramente tão grandes como as aplicações práticas mais tangíveis da investigação científica.
I. Bernard Cohen (1914- ) U. S. historian of science.

Período de nojo:

Algumas atitudes, vindas de algumas pessoas, dada a sua fealdade e o seu conteúdo venenoso, exigem veementemente um período de nojo.

No entanto, sendo este intervalo de tempo esgotado eventualmente, podemos voltar às questões levantadas por tais indivíduos mesmo com alguma vantagem que nos foi conferida pelo passar lento e pausado do tempo e pela consideração medrada dos problemas que estavam ou não em debate!


Omnia disce:

"Omnia disce, videbis postea nihil esse superfluum. Coarctata scientia jucunda non est."

Aprende tudo, verás depois que nada é supérfluo, coarctada a Ciência não é bela.

Hugh of St. Victor (c. 1078 or 1096?--1141)

Como bem compreendeu Hugo de São Victor, a busca cientifica implica liberdade. A verdadeira liberdade está, no entanto, orientada para o bem, de modo que a essa mesma liberdade possa crescer, dado que só nos pensamentos e nas acções cheias do sentido e do significado que os valores nos trazem podemos encontrar essa radical ausência de barreiras e de empecilhos que constituem a verdadeira e perene Liberdade.
De contrário temos, uma libertinagem que nos leva a perder a pouca autonomia que julgávamos ter, tal como o estudante que decide que não estuda porque para isso tem liberdade depois compreende que não fez uso de liberdade mas de estulticia pois a liberdade exerce-se em conjunção com a sabedoria ou a ciência.






Os cientistas procuram saber (é dai que vem a palavra ciência de sci= sei) as razões das coisas. As razões reais, das coisas reais que existem mesmo, caso contrário não há possibilidade de saber e lodo não há ciência possível. É que há hoje um conjunto de pessoas muito confundidas e baralhadas, julgam que se pode fazer qualquer tipo de ciência sem Metafisica/Ontologia, mas na verdade não se pode porque se as coisas não existem (ou como obstinadamente teimam os agnósticos, se não podemos saber se existem) também não podemos saber mais nada sobre nada porque, ou nada existe ou... enfim nem vale a pena continuar!

Em suma: as coisas, a realidade quero eu dizer, existem e a ciência procura saber as causas, materiais e eficientes em todo o caso da sua existência!

Fica claro, parece-me que não se pode excluir nada deste "PROQUÊ?" caso contrário como diz o Hudo de São Vitor temos um conhecimento retalhado, amputado, truncado e, mais outros sinónimos que pudéssemos encontrar!
Não só não se pode excluir nada como tem obrigatoriamente de subir ao mais alto das razões das coisas, pelo menos daquilo que intelectual e independentemente julgamos ser o cume da montanha das razões.
Isto não é nada um empreendimento humilde! É necessária audácia! Mas a sorte protege os audazes e é isso que os cientistas procuram ser AUDAZES! Quando se leva uma criança a uma loja de brinquedos e se lhe pergunta qual queres ele invariavelmente aponta para o maior, o mais espectacular brinquedo que lá houver! Ou se não se puder decidir, tenta leva-los todos! (Correndo o risco de levar a metáfora um bocadinho longe demais, o problema é que muito raramente os pais têm arcaboiço financeiro para comprar tantos e tão dispendiosos brinquedos)

Os cientistas são, com algumas adaptações sociológicas, como crianças numa grande loja de brinquedo que é o mundo! Senão veja-se o que disse o Newton:

“I do not know what I may appear to the world, but to myself I seem to have been only like a boy playing on the sea-shore, and diverting myself in now and then finding a smoother pebble or a prettier shell than ordinary, whilst the great ocean of truth lay all undiscovered before me.”

Não sei o que posso ter parecido ao mundo, mas a mim próprio pareço ter sido somente como um rapazinho que brinca na praia e se diverte quando encontra uma pedra mais macia ou uma concha mais bela do que o normal, ao passo que o grande oceanoa da verdade se apresenta completamente desconhecido diante de mim.

Temos assim que a ciência parte do desejo do Homem, um desejo que como referia Reginald Garrigou-Lagrange, O.P. tem uma profundidade infinita!



Discite a Me:

Discite a Me, quia mitis Sum et humilis corde
Aprendei de Mim que Sou manso e humilde de coração.

Mt 11, 29.

Este querem saber tudo, ou o mais possível, faz com que fiquemos encantados como o Isaac Newton com a maravilha deste nosso problema que é o real!
Chegamos assim à verdadeira humildade que não e apoucamento, mas pelo contrário nasce da nossa audácia e realiza-se na nossa compreensão de quão pequenos somos nesta imensidão vasta que procuramos entender! Somos levados, pela exaustão das forças intelectuais a ver claramente como e quanto somos insignificante diante desta magnifica obra!
Assim, se tivermos coragem somos levados a considerar a Causa das Causas; Aquele que sem se mover, move tudo e todos; o Ordenador de toda a ordem que vemos no mundo e, assim sucessivamente nas vias tomistas.

Não partimos de uma humildade(zinha) que nos é imposta de fora, pela situação existencial de uma ou outra pessoa que se demitiu deste cargo de criança à-beira-mar, mas somos levados a contemplar esta humildade no mundo e, se tivermos olhos para ver n'Aquele que sendo Construtor do Mundo se fez parte dele, com uma simplicidade que nos ensina a todos cada vez sempre mais e mais segundo a medida do nosso desejo.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Espaço de Oração na UM






“Deus é ainda uma realidade desconhecida no mundo da cultura, da ciência”.
D. Jorge Ortiga

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sábado, 29 de outubro de 2011

Discurso de Bento XVI no encontro inter-religioso de Assis


Queridos irmãos e irmãs,

distintos Chefes e representantes das Igrejas e Comunidades eclesiais e das religiões do mundo,

queridos amigos,



Passaram-se vinte e cinco anos desde quando pela primeira vez o beato Papa João Paulo II convidou representantes das religiões do mundo para uma oração pela paz em Assis. O que aconteceu desde então? Como se encontra hoje a causa da paz? Naquele momento, a grande ameaça para a paz no mundo provinha da divisão da terra em dois blocos contrapostos entre si. O símbolo saliente daquela divisão era o muro de Berlim que, atravessando a cidade, traçava a fronteira entre dois mundos. Em 1989, três anos depois do encontro em Assis, o muro caiu, sem derramamento de sangue. Inesperadamente, os enormes arsenais, que estavam por detrás do muro, deixaram de ter qualquer significado. Perderam a sua capacidade de aterrorizar. A vontade que tinham os povos de ser livres era mais forte que os arsenais da violência. A questão sobre as causas de tal derrocada é complexa e não pode encontrar uma resposta em simples fórmulas. Mas, ao lado dos fatores económicos e políticos, a causa mais profunda de tal acontecimento é de caráter espiritual: por detrás do poder material, já não havia qualquer convicção espiritual. Enfim, a vontade de ser livre foi mais forte do que o medo face a uma violência que não tinha mais nenhuma cobertura espiritual. Sentimo-nos agradecidos por esta vitória da liberdade, que foi também e sobretudo uma vitória da paz. E é necessário acrescentar que, embora neste contexto não se tratasse somente, nem talvez primariamente, da liberdade de crer, também se tratava dela. Por isso, podemos de certo modo unir tudo isto também com a oração pela paz.



Mas, que aconteceu depois? Infelizmente, não podemos dizer que desde então a situação se caracterize por liberdade e paz. Embora a ameaça da grande guerra não se aviste no horizonte, todavia o mundo está, infelizmente, cheio de discórdias. E não é somente o facto de haver, em vários lugares, guerras que se reacendem repetidamente; a violência como tal está potencialmente sempre presente e caracteriza a condição do nosso mundo. A liberdade é um grande bem. Mas o mundo da liberdade revelou-se, em grande medida, sem orientação, e não poucos entendem, erradamente, a liberdade também como liberdade para a violência. A discórdia assume novas e assustadoras fisionomias e a luta pela paz deve-nos estimular a todos de um modo novo.



Procuremos identificar, mais de perto, as novas fisionomias da violência e da discórdia. Em grandes linhas, parece-me que é possível individuar duas tipologias diferentes de novas formas de violência, que são diametralmente opostas na sua motivação e, nos particulares, manifestam muitas variantes. Primeiramente temos o terrorismo, no qual, em vez de uma grande guerra, realizam-se ataques bem definidos que devem atingir pontos importantes do adversário, de modo destrutivo e sem nenhuma preocupação pelas vidas humanas inocentes, que acabam cruelmente ceifadas ou mutiladas. Aos olhos dos responsáveis, a grande causa da danificação do inimigo justifica qualquer forma de crueldade. É posto de lado tudo aquilo que era comummente reconhecido e sancionado como limite à violência no direito internacional. Sabemos que, frequentemente, o terrorismo tem uma motivação religiosa e que precisamente o caráter religioso dos ataques serve como justificação para esta crueldade monstruosa, que crê poder anular as regras do direito por causa do «bem» pretendido. Aqui a religião não está ao serviço da paz, mas da justificação da violência.



A crítica da religião, a partir do Iluminismo, alegou repetidamente que a religião seria causa de violência e assim fomentou a hostilidade contra as religiões. Que, no caso em questão, a religião motive de facto a violência é algo que, enquanto pessoas religiosas, nos deve preocupar profundamente. De modo mais subtil mas sempre cruel, vemos a religião como causa de violência também nas situações onde esta é exercida por defensores de uma religião contra os outros. O que os representantes das religiões congregados no ano 1986, em Assis, pretenderam dizer – e nós o repetimos com vigor e grande firmeza – era que esta não é a verdadeira natureza da religião. Ao contrário, é a sua deturpação e contribui para a sua destruição. Contra isso, objeta-se: Mas donde deduzis qual seja a verdadeira natureza da religião? A vossa pretensão por acaso não deriva do facto que se apagou entre vós a força da religião? E outros objetarão: Mas existe verdadeiramente uma natureza comum da religião, que se exprima em todas as religiões e, por conseguinte, seja válida para todas? Devemos enfrentar estas questões, se quisermos contrastar de modo realista e credível o recurso à violência por motivos religiosos. Aqui situa-se uma tarefa fundamental do diálogo inter-religioso, uma tarefa que deve ser novamente sublinhada por este encontro. Como cristão, quero dizer, neste momento: É verdade, na história, também se recorreu à violência em nome da fé cristã. Reconhecemo-lo, cheios de vergonha. Mas, sem sombra de dúvida, tratou-se de um uso abusivo da fé cristã, em contraste evidente com a sua verdadeira natureza. O Deus em quem nós, cristãos, acreditamos é o Criador e Pai de todos os homens, a partir do qual todas as pessoas são irmãos e irmãs entre si e constituem uma única família. A Cruz de Cristo é, para nós, o sinal daquele Deus que, no lugar da violência, coloca o sofrer com o outro e o amar com o outro. O seu nome é «Deus do amor e da paz» (2 Cor 13,11). É tarefa de todos aqueles que possuem alguma responsabilidade pela fé cristã, purificar continuamente a religião dos cristãos a partir do seu centro interior, para que – apesar da fraqueza do homem – seja verdadeiramente instrumento da paz de Deus no mundo.



Se hoje uma tipologia fundamental da violência tem motivação religiosa, colocando assim as religiões perante a questão da sua natureza e obrigando-nos a todos a uma purificação, há uma segunda tipologia de violência, de aspeto multiforme, que possui uma motivação exatamente oposta: é a consequência da ausência de Deus, da sua negação e da perda de humanidade que resulta disso. Como dissemos, os inimigos da religião veem nela uma fonte primária de violência na história da humanidade e, consequentemente, pretendem o desaparecimento da religião. Mas o «não» a Deus produziu crueldade e uma violência sem medida, que foi possível só porque o homem deixara de reconhecer qualquer norma e juiz superior, mas tomava por norma somente a si mesmo. Os horrores dos campos de concentração mostram, com toda a clareza, as consequências da ausência de Deus.



Aqui, porém, não pretendo deter-me no ateísmo prescrito pelo Estado; queria, antes, falar da «decadência» do homem, em consequência da qual se realiza, de modo silencioso, e por conseguinte mais perigoso, uma alteração do clima espiritual. A adoração do dinheiro, do ter e do poder, revela-se uma contrarreligião, na qual já não importa o homem, mas só o lucro pessoal. O desejo de felicidade degenera num anseio desenfreado e desumano como se manifesta, por exemplo, no domínio da droga com as suas formas diversas. Aí estão os grandes que com ela fazem os seus negócios, e depois tantos que acabam seduzidos e arruinados por ela tanto no corpo como na alma. A violência torna-se uma coisa normal e, em algumas partes do mundo, ameaça destruir a nossa juventude. Uma vez que a violência se torna uma coisa normal, a paz fica destruída e, nesta falta de paz, o homem destrói-se a si mesmo.



A ausência de Deus leva à decadência do homem e do humanismo. Mas, onde está Deus? Temos nós possibilidades de O conhecer e mostrar novamente à humanidade, para fundar uma verdadeira paz? Antes de mais nada, sintetizemos brevemente as nossas reflexões feitas até agora. Disse que existe uma conceção e um uso da religião através dos quais esta se torna fonte de violência, enquanto que a orientação do homem para Deus, vivida retamente, é uma força de paz. Neste contexto, recordei a necessidade de diálogo e falei da purificação, sempre necessária, da vivência da religião. Por outro lado, afirmei que a negação de Deus corrompe o homem, priva-o de medidas e leva-o à violência.



Ao lado destas duas realidades, religião e antirreligião, existe, no mundo do agnosticismo em expansão, outra orientação de fundo: pessoas às quais não foi concedido o dom de poder crer e todavia procuram a verdade, estão à procura de Deus. Tais pessoas não se limitam a afirmar «Não existe nenhum Deus», mas elas sofrem devido à sua ausência e, procurando a verdade e o bem, estão, intimamente estão a caminho d’Ele. São «peregrinos da verdade, peregrinos da paz». Colocam questões tanto a uma parte como à outra. Aos ateus combativos, tiram-lhes aquela falsa certeza com que pretendem saber que não existe um Deus, e convidam-nos a tornar-se, em lugar de polémicos, pessoas à procura, que não perdem a esperança de que a verdade exista e que nós podemos e devemos viver em função dela. Mas, tais pessoas chamam em causa também os membros das religiões, para que não considerem Deus como uma propriedade que de tal modo lhes pertence que se sintam autorizados à violência contra os demais. Estas pessoas procuram a verdade, procuram o verdadeiro Deus, cuja imagem não raramente fica escondida nas religiões, devido ao modo como eventualmente são praticadas. Que os agnósticos não consigam encontrar a Deus depende também dos que creem, com a sua imagem diminuída ou mesmo deturpada de Deus. Assim, a sua luta interior e o seu interrogar-se constituem para os que creem também um apelo a purificarem a sua fé, para que Deus – o verdadeiro Deus – se torne acessível. Por isto mesmo, convidei representantes deste terceiro grupo para o nosso Encontro em Assis, que não reúne somente representantes de instituições religiosas. Trata-se de nos sentirmos juntos neste caminhar para a verdade, de nos comprometermos decisivamente pela dignidade do homem e de assumirmos juntos a causa da paz contra toda a espécie de violência que destrói o direito.

Concluindo, queria assegura-vos de que a Igreja Católica não desistirá da luta contra a violência, do seu compromisso pela paz no mundo. Vivemos animados pelo desejo comum de ser «peregrinos da verdade, peregrinos da paz».

Bento XVI (tradução para português publicada pelo Vaticano)

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Santa Sé: uma voz para os que não têm voz

Vaticano: Papa pede respeito pela liberdade de culto
Bento XVI recebeu novo embaixador da Holanda e criticou mentalidade «antirreligiosa»









Cidade do Vaticano, 21 out 2011 (Ecclesia) – Bento XVI recebeu hoje no Vaticano o novo embaixador da Holanda, pedindo respeito pela liberdade de culto e deixando críticas ao que classificou como “mentalidade antirreligiosa”.

“Essa liberdade não é ameaçada apenas por restrições legais nalgumas partes do mundo, mas por uma mentalidade antirreligiosa dentro de muitas sociedades, mesmo quando a liberdade de religião é protegida pela lei. É por isso que esperamos que o seu Governo seja vigilante, para que a liberdade religiosa e a liberdade de culto continuem a ser protegidos e promovidos, tanto na sua terra quanto no exterior", disse o Papa ao diplomata holandês, Joseph Weterings.

A Igreja Católica na Holanda conta com 4,26 milhões de fiéis, mais de 25% da população e é o maior “grupo religioso” no país, segundo dados do Vaticano, apesar da diminuição do número de batizados nas últimas décadas.






Bento XVI abordou também a questão da identidade da Santa Sé, afirmando que esta não é “um poder económico ou militar”,

“A sua voz moral exerce considerável influência à volta do mundo. Uma das razões para isso é precisamente o facto de a instância moral da Santa Sé não ser afetada por interesses políticos ou económicos ou coerções eleitorais de um partido político. A sua contribuição à diplomacia internacional consiste largamente em articular os princípios éticos que deveriam sustentar a ordem política e social e em chamar a atenção para a necessidade de ações para remediar as violações de tais princípios", referiu o Papa.

Segundo Bento XVI, a diplomacia da Santa Sé “não é conduzida por motivos confessionais ou pragmáticos, mas com base em princípios universalmente aplicáveis que são tão reais quanto os elementos físicos do ambiente natural”.

"Como uma voz para os que não têm voz, e defendendo os direitos dos indefesos, incluindo os pobres, doentes, não nascidos, idosos e os membros de grupos minoritários que sofrem injustas discriminações, a Igreja procura sempre promover a justiça natural”, acrescentou.

O Papa admitiu que os membros da Igreja “nem sempre vivem à altura dos parâmetros morais que ela propõe”, mas entende que isso não a impede de “continuar a exortar as pessoas para procurarem fazer o que está de acordo com a justiça”.

Em conclusão, Bento XVI destacou pontos de colaboração em comum entre a Santa Sé e a Holanda, particularmente no que diz respeito à resolução pacífica de conflitos internacionais e à oposição à proliferação de armas.

OC

domingo, 16 de outubro de 2011

Ano da Fé



O Papa Bento XVI, anunciou hoje a convocação de um «Ano da Fé» que decorrerá entre 2012 e 2013.

Este ano terá como um dos seus objectivos comemorar o 50º aniversário do Concilio do Vaticano II.
A Fé, dão precioso de Deus, é uma das virtudes fundamentais (apesar de todas o serem a começar pela Caridade), principalmente nos dias de hoje, ie. no inicio do século XXI depois dos exageros quase fundamentalistas dos racionalismo ateu e agnóstico dos séculos XIX e XX. Este flagelo, oriundo de uma pura ilusão do (orgulho do) homem - a de que pode guiar-se e resolver definitivamente todas as grandes questões unicamente tendo como recurso a razão -, levou ao nascimento de verdadeiros Cancros Ideológicos como o Nazismo o Comunismo e o Fascismo que são todos aspectos diferentes da mesmo erro.

É tempo de aprendermos (ou talvez de reaprendermos) a usar a razão de forma responsável, reconhecendo a sua indubitável utilidade e grandeza - afinal de contas Deus é um ser Racional, que se comunica com o homem e toda a comunicação tem uma componente racional -, mas deslindando ao mesmo tempo os seus limites, o seu domínio de acção, a sua forma própria de operar e os resultados que dela podemos obter.

Se isto temos que estaremos irremediavel e irracionalmente perdidos!