terça-feira, 24 de maio de 2011

Agnosticismo: o medo do compromisso!





A citação do Catecismo da Igreja Católica no meu último post, falava em preguiça em indiferentismo e, em fuga, para descrever uma atitude - o agnosticismo - que nega totalmente a possibilidade de conhecer Deus, a alma e toda a realidade metafisica em geral.

Estes termos, indiferentismo, preguiça, fuga, estão no campo semântico de outros tantos como adormecimento, torpor, sonolência, laxismo, lassidão e, até talvez o extremo de trauma e, medo. Assim, neste post, desejo dar a minha opinião acerca daquilo que constitui o agnosticismo do ponto de vista psicológico e, social.

A psicologia e a sociologia, são duas Ciências Sociais de pleno direito, com uma epistemologia muito diferente daquela que poderia ser invocada a propósito das Ciências Naturais. Muitos autores definiram, ou melhor tentaram definir, esta epistemologia como uma teoria crítica, em oposição a um mero carácter positivo do conhecimento. Parte desta epistemologia, quer se lhe chame, teoria crítica que não, é a multidisciplinaridade quer dizer: um problema que diga respeito a pessoas e sociedades, deve ser tratado sob o ponto de vista simultâneo de varias disciplinas. No nosso caso temos a sociologia e a psicologia, numa interacção segundo a qual num dos termos temos o comportamento de grupo e, no outro do comportamento individual respectivamente. Tudo isto, claro, é ainda simplificado pois o objectivo deste post não é discutir a epistemologia das Ciências Sociais.

Assim, parece-me que no extremo psicológico, há uma razão principal para a emergência do agnosticismo, é o medo do compromisso. Tanto a fé num Deus criador como negação peremptória desse mesmo Deus, acarretam responsabilidades. Começo pelo caso do ateísmo, a negação completa de Deus, implica "que tudo se joga aqui", como dizia Paulo Flores D'Arcais no livro Deus Existe?





Mas, esta posição frontal (que exige coragem) é demasiado difícil para o típico individuo contenporaneo! Este preferiria, caso fosse possível, jogar nas duas equipas - assim ganharia sempre! Esta posição exige do Ser Humano o comprometimento completo com este mundo e a sua ordem material, mutável e, incerta. Ora é de um problema de comprometimento que estamos a falar!

Quanto à posição oposta, é bem sabido que um dos primeiros deveres da Fé é a obediência, ob audire, quer dizer: quem ouve a Palavra de Deus deve agir em consonância com o que ouve caso contrário não adianta nada... CIC 144 É claro que esta obediência é livre e racional e, também é claro que Jesus disse "o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve" (Mateus 11:28-30), mas para o Homem de hoje nada disso parece ter efeito. Logo que se lhe fala em "Não mater"; "Não cometer adultério", "Não adorar outros deuses" etc, ele treme de medo porque julga que é levando uma vida hedonista que será feliz!.. Julga que se ganhar a lotaria, não trabalhar, se tiver quantas mulheres (respectivamente homens) quiser, que se não tiver que se preocupar com comer e pagar as contas, porque tem em abundância, que isso o fará feliz!

E pronto, psicologicamente este medo do comprometimento conduz a uma espécie de trauma. Logo que se fala em matrimónio indissolúvel e monogâmico, ou no celibato dos Padres; quando se fala em ter filhos em vez de fazer abortos; quando se fala em sofrimento de qualquer tipo, o Homem contemporâneo, hedonista treme de pavoroso horror! Mas por outro lado, a ideia de perseguir a Igreja e, de a destruir activamente (como na Rússia) felizmente também já não colhe aquela massa de adeptos fervorosos de outrora.

O Homem de hoje deseja sentar-se no muro e não decidir. Eles que lutem uns com os outros e logo quando for preciso tomar uma decisão, logo se verá!



Tudo isto tem no entanto e, sempre na minha modesta opinião, que ver com o fenómeno social da liberdade mal entendida. Socialmente, a ênfase está na exaltação da liberdade, no sentido simples de se poder fazer o que se quiser. Ora na medida em que a Fé nos impõe regras mas, o ateísmo impõe outras tantas limitações, (como, a quem é o homem e a mulher comuns recorreriam quando algo muito grave se abatesse sobre eles? a Deus claro está), a visão das mulheres e dos homens de hoje leva-as(os) a não se pronunciarem sobre a existência de Deus! Ter liberdade para decidir! A "liberdade da consciência" ! Tudo isto brota numa má interpretação da liberdade (que é uma grande conquista da Humanidade) e, que deve mais correctamente ser olhada em paralelo com a responsabilidade. A liberdade é algo que nos foi dado com o objectivo de escolhermos o melhor não o pior. Embarcar numa corrida desenfreada de loucuras tresloucadas até à vertigem, não é tanto expressão da liberdade como do pouco critério e, até se me permitem da irracionalidade. Esses dizem: "A minha liberdade, a minha liberdade! Têm-na e não a seguem;" São Josemaría Escrivá, em Amigos de Deus.


É claro que o problema é de certeza mais complexo e, terá muito mais matizes. Uma excelente proposta está aqui. Mas, seja como for, um medo psicológico de qualquer compromisso aliado a uma insistência numa liberdade que é entendida como libertinagem, parecem-me as causas mais evidentes de para não querer lidar com o problema da existência de Deus e dizer-se agnóstico.

Em tudo quanto acabo de dizer falo do homem e da mulher comum, quer dizer da rua, não do filósofo, nem do intelectual. Para alguns desses (não todos claro, porque a razão não é má, se fosse caiamos num fideismo) o problema está noutro lado, na auto-idolatria, no orgulho que não os deixa ver nada superior a eles próprios! Mas isso fica para um próximo post.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O crepúsculo do iluminismo:




Todos nós já tivemos a experiencia de estar num debate, ou numa qualquer conversa com alguém que procura defender o indefensável. Acontece também que, a maior parte das vezes essa pessoa chega a um ponto no qual se recusa simplesmente a abordar a questão, procura pelo contrário desvaloriza-la, reduzi-la a um mal-entendido, ou tenta dar-nos razão sob um ponto de vista menor e, com uma argumentação falaciosa. Neste momento, dizemos para nós próprios: “não quer debater porque sabe que está errado” !.. E, não raras vezes, é verdade! Quer seja consciente ou inconscientemente o nosso interlocutor sabe serem falsos os seus pressupostos e conhece a futilidade da sua argumentação.

Pois bem. Esta é exactamente a situação (na minha opinião claro), no que diz respeito aos limites da razão, discussão intemporal mas que nos séculos XVII e XVIII foi levada a extremos inauditos. Neste período histórico, certos pensadores, tais como Rousseau, Montesquieu, Voltaire, Locke, Diderot, só para mencionar alguns, proclamaram (não todos juntos obviamente porque o Iluminismo foi um movimento social complexo), que a Idade das Trevas havia terminado e, que doravante o Homem seria libertado das superstições (entre as quais a Religião seria uma das principais) e, entraria numa fase de progresso impulsionada pela Razão!

Cientificamente, eles partiam daquilo que na mina opinião são sucessos alheios! Quero dizer com isto que, as figuras concretas nas quais eles se inspiraram para proclamar o primado da razão, que foram Galileu, Kepler e, Newton, eram todos homens profundamente crentes! Galileu, para esclarecer um mal entendido, era Católico devoto, apesar da célebre e complexíssima questão que o opôs ao Santo Oficio. Kepler havia estudado com o fim de ser Sacerdote e desejava continuar os seus estudos para aprender Teologia e, Newton acreditava em Deus e escreveu até extensamente sobre o assunto! Estes homens em especial o brilhante Isaac Newton, partindo das evidencias científicas ao seu dispor, erigiram uma visão mecânica do mundo, que contrastava com a visão orgânica de inspiração aristotélica/tomista e, que havia influenciado a Europa durante séculos. Desta visão mecânica – que vê os fenómenos como peças de uma máquina – até uma concepção totalmente mecanicista – que julga que o mundo são só essas peças – o caminho foi curto e rápido! Muito rapidamente, a arrogância do "Je n'avais pas besoin de cette hypothèse-là" laplaciano fez-se soar, com estridente ribombar, marcando a aparente inutilidade da hipótese de deus!

O projecto iluminista/racionalista, os dois termos não são o mesmo mas estão muito relacionados, consistia em tornar a razão o único bloco do conhecimento da realidade. Mas como esta parte sempre de pressupostos, este projecto acabou na negação de tudo no niilismo. Como afirmou João Carlos Espada, um dos problemas “reside na colossal ambição do racionalismo dogmático que subjaz ao ateísmo: a de que a razão pode fornecer pressupostos isentos de pressupostos. Mas a razão não consegue explicar porque existe algo em vez de nada. ” in Expresso 21.04.07.

Neste lastimável estado de coisas, chegou-se ao século XIX. Aí (a par com um projecto positivista completamente megalómano), a razão lançou as sementes, para o ocaso da razão! Quero dizer, os descendentes intelectuais e seguidores de quantos tinham no iluminismo proclamado em altos brados não só o primado mas também a total hegemonia da razão, passaram a defender agora que uma parte do real não é racionalmente escrutinável!

Defende-se agora, que Deus já não é uma hipótese inútil, mas alguém que não se pode conhecer pela razão. O credo agnóstico é este: não nego nem afirmo a existência de Deus! De facto, o “ agnosticismo pode, por vezes, encerrar uma certa busca de Deus. Mas pode igualmente representar um indiferentismo, uma fuga perante a questão última da existência e uma preguiça da consciência moral. Com muita frequência, o agnosticismo equivale a um ateísmo prático. ” Catecismo da Igreja Católica 2128.

Este problema, o do agnosticismo, que tem ramificações múltiplas e variadas, pode ser analisado de vários ângulos: do ponto de vista filosófico; como um fenómeno social; nas suas causas psicológicas, etc. É exactamente este itinerário que nos propomos fazer nos próximos posts.

Espera-se assim lançar alguma luz, sobre um problema que tanto afecta a sociedade actual e, que do nosso ponto de vista assenta no medo do compromisso, numa sociedade desestruturada e, num medo paralisador de qualquer compromisso pessoal.

terça-feira, 19 de abril de 2011

No Princípio fez Deus o ceu e a terra:

Nunca consigo deixar de olhar com perplexidade para o facto de certas ideias, que parecem às vezes até bastante teóricas, evocarem um conjunto de reacções que parem totalmente desproporcionadas quando comparadas com o aparente alcance da afirmação original.

Um desses casos é precisamente a ideia expressa em epigrafe e, que constitui nada mais nada menos do que o versículo de abertura do Livro do Génesis:


In principio creavit Deus caelum et terram.


ou no nosso belo Português (com todas as suas legitimas e nada menos belas variantes Brasileiro etc)

No princípio criou Deus o céu e terra. Génesis 1,1.

Ora, esta singela ideia, na qual obviamente se é livre de acreditar ou não conforme a escolha que façamos, parece provocar num conjunto não tão pequeno como isso de pessoas, uma reacção eivada da mais amarga raiva que podemos imaginar!

Pela minha parte, sempre me intrigou esta reacção tanto pela sua qualidade negativa, como pela sua magnitude absoluta e totalmente desproporcionada quando comparada com a afirmação original.
Mas vejamos mais de perto: qualitativamente, uma tal atitude constitui-se como a total negação do que se propõe ser, quer dizer se não há verdade e a verdade do meu interlocutor é tão válida como a minha, fica claro que eu tenho que respeita-la como respeito a minha, não posso reagir como se ele fosse um ser acéfalo unicamente porque diz algo que me contraria; quanto à magnitude da resposta, é fácil notar que estar na razão deve investir a pessoa (que nela efectivamente está claro), de uma calma e uma tolerância maiores do que o normal e, não provocar uma reacção raivosa e alterada.

Por outro lado, um breve momento de reflexão identifica rapidamente o tipo de personagem que normalmente se dá a este tipo de comportamentos: esta é uma atitude em tudo paralela à que os adolescentes mostram quando alguém com mais experiência lhes diz que algo (a escola, o trabalho etc), é bom para o futuro deles. Aí, empertigam-se, "fazem peito" e, negam absolutamente que o seu critério possa ser falso no mínimo detalhe que seja!

Pois bem, esta última atitude parece ser em si muito explicativa. Senão vejamos: o que a noção de sermos criados por Deus implica, é uma dependência em relação a Deus. Eu homem ou mulher, não me fiz a mim próprio, mas Outro maior do que eu criou-me (por Amor que não é pouca coisa) e, como tal há critérios (os Dele) e regras que são válidos para alem de todo o aparente relativismo.

É quanto afirma o Papa Bento XIV no seu excelente livro "No Princípio Deus criou o céu e a terra".



Realmente, esta ideia de que somos dependentes de Deus e, que é absolutamente uma questão de Fé, torna-se muito difícil de engolir para um conjunto muito grande de pessoas. Digo qeu é uma questão de Fé, porque quero fazer ressaltar que não há maneira científica de provar o contrário, ie. que Deus não nos criou e, que não somos dependentes d'Ele. Sendo assim é perfeitamente legitimo racional e até científico de um certo ponto de vista acreditarmos nesta nossa verdade cristã!

Entre aqueles que mais dificuldade têm de aceitar esta afirmação encontram-se os marxistas. De facto, Karl Marx que constitui herdeiro do iluminismo e do racionalismo, nega ás mulheres e aos homens a possibilidade de perguntarem: donde venho? Qual o sentido da minha existência? Para onde vou? Qual é o meu fim último? Nega a possibilidade destas questões apelando para condicionamentos sociológicos e históricos e, assim, desta maneira, não apresenta mais do que um racionalismo truncado, no qual o homem seria libertado do jugo dos detentores dos meios de produção, para arcar com um jugo mil vezes mais pesado o do Partido, que determina de antemão o que se pode ou não perguntar!

Mais ainda, esta atitude marxista está no âmago daquilo que nós os Cristãos chamamos pecado original, que nao é mais do que a afirmação falsa e mentirosa de qeu somos independentes e podemos unicamente pelas nossas forças moldar a História às nossos conveniências. Esta ideia é superlativamente perigosa. Levou ao estabelecimento de Estados cujo governo não teve e, infelizmente nalguns casos não tem, respeito pela verdadeira dignidade da pessoas humana, que só se pode fundar na verdade da sua condição de criatura e, como tal dependente do Amor de Deus.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O défice de diálogo na ciência:




O diálogo é uma forma de comunicação livre entre duas pessoas. Em muitos sentidos, é a forma de comunicação por excelência!
Difere do monólogo – que é outra forma de comunicação na qual só um fala – exactamente porque exige a participação empenhada de duas pessoas. No ensino em geral e, na Filosofia onde constituía o núcleo essencial do Método Socrático e do de outros filósofos como Sto. Agostinho, é de importância capital, já que é amplamente reconhecido que só a verdadeira partilha de ideias e pontos de vista leva à aquisição real de conhecimento!

Nas ciências em geral e nas ciências naturais em particular, a situação não é diferente. Nestas últimas no entanto, certos fenómenos característicos das comunidades científicas são particularmente influentes no que diz respeito ao tipo e qualidade dos diálogos encetados. No caso de uma ciência como a Física, que envolve a compressão e utilização de conceitos e técnicas muito complexos e cujos significados só são adequadamente entendidos pelos membros da comunidade, é de esperar que se verifiquem dois fenómenos interligados, mas que terão um efeito crucial na comunicação pelo diálogo: (i) em geral a destreza intelectual dos físicos na manipulação dos conceitos próprios da física e áreas afins, como sejam a Matemática a Informática e outras é muito grande. Ou seja de modo mais simples os físicos são em geral bastante inteligentes (no entanto a inteligência é um fenómeno factorial, multifacetado muito complexo) no que diz respeito a tarefas lógico-formais. (iii) Também de uma forma geral, quer dizer há excepções, os físicos ignoram quase na totalidade, ou têm uma ideia muito malformada de tudo o que diz respeito a áreas diferentes da deles por exemplo de Humanidades em geral, chegando mesmo em não poucos casos a ter um desprezo algo preconceituoso por ciências de pleno direito como a Sociologia, a Psicologia, a Antropologia a Linguística, já para nem falar em actividades diferentes da ciência como a Filosofia. No fundo, estas duas características, são o retrato de um grupo humano muito especializado e, que em geral não tem disponibilidade intelectual para embarcar em indagações que levem para muito longe do seu ponto de origem! Esta situação é também sintomática de uma certa visão (acabada) da ciência, própria do oitocentos de Conte e, que considerava inocentemente que a física era o paradigma das ciências e, que a sociologia seria uma física social!

Pois bem, este estado de coisas propicia um ambiente no qual cada um tem a percepção de que é, dono e senhor do conhecimentos, na medida em que sabe física e campos afins e, mais ainda que o conjunto de saberes no qual a pessoa é proficiente esgota totalmente o real, mesmo até ao ponto de o deixar exangue! No fundo, tudo se passa come se existisse um complexo de superioridade, mas este manifesta-se tanto a nível individual como ao nível de grupo.
Faço aqui uma pausa, para esclarecer que obviamente no domínio estrito da física, um físico tem o direito (e talvez até o dever), de se sentir mais habilitado do que um filósofo, por exemplo. No entanto, a esmagadora maioria das conversas e diálogos quotidianos não versam sobre assuntos nem de física nem remotamente redutíveis a ela. Por exemplo, numa conversa acerca da Radiação de Buraco Negro, de Supercondutividade do Principio de Exclusão de Pauli, um leigo não poderá ter a pretensão de bater-se “de igual para igual com o físico”. Mas em contraste, se falarmos da Globalização, da Modernidade/Pós-modernidade, da Crise do Subprime, neste caso o físico não pode de maneira nenhuma ter a veleidade de pensar e agir como se o seu saber ao nível da física e das ciências naturais em geral lhe dessem qualquer tipo de vantagem natural! Ora malogradamente é exactamente isto que acontece! Quem frequenta os ambientes científicos, sabe que a crítica mais frequente a um professor/conferencista/palestrante é: “ele fala para se ouvir”. E, que a atitude mais comum perante uma excelente exposição de um dado assunto (quer a nível pessoal, já que tratamos aqui de dialogo quer, também a um nível colectivo de palestras) é, precisamente fazer tudo o que um bom conversador não deve, que é : interromper de modo a não deixar falar; discordar de uma maneira brusca e até mesmo em alguns casos acintosa; expor opiniões contrárias como se fossem verdades absolutas¸ e logo num assunto com a ciência onde não há absolutos; recorrer a uma forma de argumento de autoridade encapotado, que consiste em citar alguém mediático.

Por estas razões e, muitas outras que exigiriam um estudo alongado de sociologia da ciência, poder-se-ia por exemplo encetar algo ao longo das linhas traçadas por Erving Goffman no seu excelente trabalho “A apresentação do eu na vida de todos os dias”, julgo que há um défice de diálogo entre os cientistas.




Este só pode ser colmatado tendo em conta que: “Não há investigação, avanço no domínio científico sem discussão, trocas de ideias, imaginação sem entraves, elaboração livre de modelos etc. O que supõe necessariamente liberdade de pensamento, e de opinião. ” (José Gill, Portugal Hoje: O Medo de Existir, Relógio D’Água).







De facto, a liberdade, a pluralidade, a reciprocidade, o respeito pelo outro como igual são na sociedade em geral mas, muito particular e urgentemente, necessários na comunidade dos cientistas, se é que se pretende produzir algum tipo de saber científico e, encetar o hoje em dia tão badalado progresso.

domingo, 28 de novembro de 2010

Os nosso sonhos:




Quando renunciamos aos nossos sonhos e encontramos a paz – disse ele depois de um tempo – temos um pequeno período de tranquilidade. Mas os sonhos mortos começam a apodrecer dentro de nós, e infestar todo o ambiente em que vivemos. Começamos a nos tornar cruéis com aqueles que nos cercam, e finalmente passamos a dirigir esta crueldade contra nós mesmos. Surgem as doenças e psicoses. O que queríamos evitar no combate – a decepçao e a derrota – passa a ser o único legado de nossa covardia. E, um belo dia, os sonhos mortos e apodrecidos tornam o ar difícil de respirar e passamos a desejar a morte, a morte que nos livrasse de nossas certezas, de nossas ocupaçoes, e daquela terrível paz das tardes de domingo.
(em O diário de um Mago de Paulo Coelho).

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Preconceitos sobre Religião:

Os preconceitos, são infelizmente uma realidade bastante comum, tanto entre pessoas com crenças religiosas como sem eles!

A razão é bastante bem conhecida: a Psicologia Social identificou as componentes dos estereótipos --- que uma vez dando origem a atitudes são exactamente preconceitos ---, como sendo respectivamente, afectivas, cognitivas e, sociais.

Entre a componente afectiva, pode compreender-se que um individuo que viveu uma experiência que lhe tenha causado (mesmo a mais banal) dor psicológica fica indelevelmente marcado, por essa mesma ocorrência. Por exemplo, são bem conhecidas as pessoas que eram "bastante religiosos" mas que por um desentendimento com um Padre, um Bispo, uma catequista ou, diversamente dado um divorcio complicado, um aborto, ou qualquer outro acontecimento mais tumultuoso, se tornaram "ateus convictos"!..

No que diz respeito à componente cognitiva, é bem conhecido o fenómeno da acentuação perceptiva e o da busca de coerência (sobre os quais falaremos num post futuro), ora parece que todos os seres humanos têm necessidade de procuram ordem no mundo em que vivem, mas, por vezes fazem-no à custa de uma sobre-simplificação. Esta pode ser do género: "todas as pessoas religiosas são fundamentalistas" ou, "só têm crenças religiosas quem não tem um nível cultural e educacional elevado". Apesar destas afirmações serem muito facilmente falsificadas, é impressionante ver quantas pessoas com alguma capacidade incorrem neste tipo de generalizações abusivas!

Quanto ao aspecto social dos preconceitos, ele está enraizado nas noções de identidade social, categorização social, e mobilidade social. Como brilhantemente expôs H. Tajfel no seu trabalho "Grupos humanos e categorias sociais".


Neste e noutros trabalhos, expõe-se a ideia de que os estereótipos socialmente servem para justificar a nossa visão do mundo. Eles são autenticas "teorias quotidianas" do funcionamento da sociedade. Por exemplo: se dependemos dum certo meio social para a nossa subsistência e realização profissional e, esse meio é fortemente anti-religioso é de esperam que mais cedo ou mais tarde nos tornemos também nós altamente críticos do fenómeno da crença religiosa.

Todos este factores, que podiam ser muito mais elaborados (basta ver a obra citada), desmascaram uma serie de "tiques" sociais que se foi generalizando nos últimos séculos. Entre estes temos a noção de que o progresso em última analise ultrapassará a religião e torna-la-a obsoleta. Só que esta ideia baseia-se numa noção ingénua de progresso, que assenta numa visão linear da História a qual simplesmente é inadequada perante a modernidade em que vivemos, veja-se por exemplo Anthony Giddens "As consequências da Modernidade", obra sobre a qual falaremos mais no futuro.

É verdade que as religiões têm sofrido mudanças nos últimos séculos, um caso paradigmático é o do Concílio do Vaticano II cujos documentos constituem um visão moderna/contemporânea do Catolicismo.

No entanto, as "adaptações" que foram feitas neste caso não implicam, como muitos pensam uma contradição e uma ruptura com o passado. Pelo contrário, elas estão em estreita continuidade naquilo que é essencial ao Cristianismo. Ou seja, mudou-se o acessório mas, manteve-se o essencial.

Outra das grandes "manias sociais" do nosso tempo consiste em ter a tendência para achar que, só as pessoas sem instrução são religiosas. Nada podia ser mais longe da verdade! Há pessoas religiosas, leigos e pertencente à Hierarquia da Igreja, com uma cultura tão extensa e tão centrada no essencial do nosso tempo que rivaliza sem qualquer dificuldade com qualquer estadista. Entre os leigos posso citar facilmente dois exemplos o Professor Doutor César das Neves (Economista e escritor) e, o Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa, que é por demais conhecido dos Portugueses. Entre os Sacerdotes, basta falar no Cardeal Patriarca D. José Policarpo no Bispo do Porto D. Manuel Clemente e no Cardeal D. Saraiva Martins, segundo sei até tem dois graus de Doutoramento.

Seria bom reflectirmos e examinarmos as nossas convicções para aferirmos até que ponto seremos efectivamente tão racionais quanto pretendemos ser!

domingo, 31 de outubro de 2010

Fábulas




"Contam que certa raposa,
andando muito esfaimada,
viu roxos, maduros cachos
pendentes de alta latada.

De bom grado os trincaria,
mas sem lhes poder chegar,
disse: 'Estão verdes, não prestam,
só cães os podem tragar!'

Eis cai uma parra, quando
prosseguia o seu caminho,
e, crendo que era algum bago,
volta depressa o focinho."»



Era crença de toda a antiguidade que o Corvo fazia os mais acertados vaticínios da Crocitomancia dos Kapapretas (Krahkrahkrahkrahahaha...) A Gralha Invejosa, vestida também de kapapreta pleiteava ter os mesmos privilégios. Tentou logo com os primeiros passantes da estrada, pondo-se a gritar e a bater suas asas. Mesmo algo assustados, seguiram sem medo quando um deles disse aos outros: "Vamos adiante! É uma simples Gralha! Esses pássaros não anunciam presságios!"




"A Serpente e o Pirilampo"

Era uma vez uma cobra que começou a perseguir um Pirilampo.
Ele fugia com medo da feroz predadora, mas a cobra não desistia.
Um dia, já sem forças, o pirilampo parou e disse à cobra:
- Posso fazer três perguntas?
- Podes. Não costumo abrir esse precedente, mas já que te vou comer, podes perguntar.
- Pertenço à tua cadeia alimentar?
- Não.
- Fiz-te alguma coisa?
- Não.
- Então porque é que me queres comer?
- PORQUE NÃO SUPORTO VER-TE BRILHAR!!!