sábado, 20 de agosto de 2011

Bento XVI: Compreender a Deficiência




VIAGEM APOSTÓLICA A MADRID
POR OCASIÃO DA XXVI JORNADA MUNDIAL DA JUVENTUDE
18-21 DE AGOSTO DE 2011

VISITA À FUNDAÇÃO INSTITUTO SÃO JOSÉ

SAUDAÇÃO DO PAPA BENTO XVI

Madrid, Sábado 20 de Agosto de 2011



Senhor Cardeal Arcebispo de Madrid,
Queridos Irmãos no Episcopado,
Queridos sacerdotes e religiosos
da Ordem Hospitaleira de São João de Deus,
Distintas Autoridades,
Queridos jovens, familiares e
voluntários aqui presentes!

De coração vos agradeço a amável saudação e o cordial acolhimento que me dispensastes.

Nesta noite, antes da Vigília de oração com os jovens de todo o mundo que vieram a Madrid para participar nesta Jornada Mundial d Juventude, temos a ocasião de passar alguns momentos juntos e poder-vos assim manifestar a solidariedade e o apreço do Papa por cada um de vós, pelas vossas famílias e por todas as pessoa que vos acompanham e cuidam nesta Fundação do Instituto São José.

A juventude, como recordei outras vezes, é a idade em que a vida se revela à pessoa em toda a riqueza e plenitude das suas potencialidades, incitando à busca de metas mais altas que dêem sentido à mesma. Por isso, quando o sofrimento assoma ao horizonte duma vida jovem, ficamos desconcertados e talvez nos interroguemos: Poderá a vida continuar a ser grande, quando irrompe nela o sofrimento? A este respeito, escrevi na minha encíclica sobre a esperança cristã: «A grandeza da humanidade determina-se essencialmente na relação com o sofrimento e com quem sofre. (…) Uma sociedade que não consegue aceitar os que sofrem e não é capaz de contribuir, mediante a compaixão, para fazer com que o sofrimento seja compartilhado e assumido mesmo interiormente é uma sociedade cruel e desumana» (Spe salvi, 38). Estas palavras reflectem uma larga tradição de humanidade que brota da oferta que Cristo faz de Si mesmo na Cruz por nós e pela nossa redenção. Jesus e, seguindo os seus passos, a sua Mãe Dolorosa e os santos são as testemunhas que nos ensinam a viver o drama do sofrimento para o nosso bem e a salvação do mundo.

Estas testemunhas falam-nos, antes de mais nada, da dignidade de cada vida humana, criada à imagem de Deus. Nenhuma aflição é capaz de apagar esta efígie divina gravada no mais fundo do homem. E não só: desde que o Filho de Deus quis abraçar livremente a dor e a morte, a imagem de Deus é-nos oferecida também no rosto de quem padece. Esta predilecção especial do Senhor por quem sofre leva-nos a contemplar o outro com olhos puros, para lhe dar, além das coisas exteriores que precisa, aquele olhar de amor que necessita. Mas isso, só é possível realizá-lo como fruto de um encontro pessoal com Cristo. Bem conscientes disto sois vós, religiosos, familiares, profissionais da saúde e voluntários que viveis e trabalhais diariamente com estes jovens. A vossa vida e dedicação proclamam a grandeza a que é chamado o homem: compadecer-se e acompanhar quem sofre, como o fez o próprio Deus. E, no vosso maravilhoso trabalho, ressoam também estas palavras evangélicas: «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 40).

Por outro lado, vós sois também testemunhas do bem imenso que constitui a vida destes jovens para quem está ao seu lado e para a humanidade inteira. De maneira misteriosa mas muito real, a sua presença suscita em nossos corações, frequentemente endurecidos, uma ternura que nos abre à salvação. Sem dúvida, a vida destes jovens muda o coração dos homens e, por isso, damos graças ao Senhor por tê-los conhecido.




Queridos amigos, a nossa sociedade – onde demasiadas vezes se põe em dúvida a dignidade inestimável da vida, de cada vida – precisa de vós: vós contribuís decididamente para edificar a civilização do amor. Mais ainda, sois protagonistas desta civilização. E, como filhos da Igreja, ofereceis ao Senhor as vossas vidas, com as suas penas e as suas alegrias, colaborando com Ele e entrando, de algum modo, «a fazer parte do tesouro de compaixão de que o género humano necessita» (Spe salvi, 40).

Com íntimo afecto e por intercessão de São José, de São João de Deus e de São Bento Menni, confio-vos de todo o coração a Deus nosso Senhor: Seja Ele a vossa força e o vosso prémio. Como sinal do seu amor, concedo-vos, a vós e a todos os vossos familiares e amigos, a Bênção Apostólica. Muito obrigado.



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quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Visão: Horizontal ou superficial?





Devemos livrar-nos do habito de considerar as coisas horizontalmente e superficialmente, como se todas tivessem o mesmo valor e importância. Este é um ponto de vista materialista, uma concepção niveladora que apaga toda a elevação e profundidade. Devemos acostumar-nos, doutra doutro modo, a ver as coisas de cima para baixo verticalmente, por assim dizer, ou na sua profundidade.
Acima de tudo está Deus, espírito puro, imutável, eterno e imenso, conservando e dando a vida a todas as coisas. Depois vem a Humanidade do nosso Salvador, o canal pelo qual nos é transmitida toda a graça e, que está presente em todos os Sacrários do mundo. Ainda mais abaixo, está a Nossa Senhora, a medianeira e co-redentora; e, depois dela os santos; depois vem o pastor supremo da Igreja e, os Bispos. Depois deles vêm os fieis que estão em estado de graça e também aqueles Cristãos que, apesar de não estarem no estado de graça, no entanto como Católicos, guardam a Fé como revelada por Deus. E, por último estão aquelas almas que estão à procura da verdade e aquelas, também, que, ainda vagueiam no erro, as quais no entanto em certos momentos recebem de Deus Nosso Senhor, graças de iluminação e inspiração.
Esta maneira de olhar as coisas como se fosse perpendicularmente ou, se quiserem, na sua altura e profundidade em vez de superficialmente, é precisamente aquela contemplação que procede da Fé iluminada pelos dãos do entendimento e da sabedoria.

A providencia
, Réginald Marie Garrigou-Lagrange, O.P.

domingo, 24 de julho de 2011

Preferir a Ciência a tudo o resto!





Naqueles dias, o Senhor apareceu em sonhos a Salomão durante a noite e disse-lhe: «Pede o que quiseres». Salomão respondeu: «Senhor, meu Deus, Vós fizestes reinar o vosso servo em lugar do meu pai David e eu sou muito novo e não sei como proceder. Este vosso servo está no meio do povo escolhido, um povo imenso, inumerável, que não se pode contar nem calcular. Dai, portanto, ao vosso servo um coração inteligente, para governar o vosso povo, para saber distinguir o bem do mal; pois, quem poderia governar este vosso povo tão numeroso?». Agradou ao Senhor esta súplica de Salomão e disse-lhe: «Porque foi este o teu pedido, e já que não pediste longa vida, nem riqueza, nem a morte dos teus inimigos, mas sabedoria para praticar a justiça, vou satisfazer o teu desejo. Dou-te um coração sábio e esclarecido, como nunca houve antes de ti nem haverá depois de ti». (1 Reis 3, 5.7-12)

Existe uma ordem de nobreza nas coisas. As inertes são menos nobres do que as vivas. As criaturas irracionais (ainda que devem ser escrupulosamente respeitadas) são, menos nobres do que as racionais! Assim, desta mesma maneira é para os bens: os materiais, são importantes sem dúvida mas, não se compara aos intelectuais e, estes muito menos aos da alma à Virtude à Graça Santificante e aos dons do Espírito Santo!
Sobre todos os bens que podem ser possuídos está o Bem Supremo, Deus que sacia totalmente os nossos desejos.
A este respeito diz Garrigou-Lagrange:

Por isso a bem-aventurança ou verdadeira felicidade, que
o homem já deseja natural mente não pode encontrar-se em
nenhum bem limitado ou restrito, mas unicamente em Deus(...)

Com efeito, e impossivel que 0 homem encontre a verdadeira
felicidade, que deseja naturalmente, em qualquer
bem limitado, porque a sua inteligência, verificando imediatamente
a limite, concebe um bem superior e, naturalmente,
esse bem e desejado pela vontade.
(O Homem e a Eternidade)


Desta maneira, podemos apreciar melhor quanto Salomão estava certo quando pediu um "coração inteligente", num certo sentido pediu para estar mais em consonância com aquilo que ele é razão. Também em maior sintonia com Deus, porque um coração inteligente funda-se no amor que nos vem da participação no Amor que é Deus!

Do que se disse, vê-se à saciedade que é sumamente estulto procurar riquezas ou honras ou fama quando o bem que devemos procurar é Deus. Único bem que pode terminar a nossa busca de bens.

Também São Tomás insigne escritor ouviu de Jesus na oração uma pergunta à qual respondeu da mesma maneira:

Bene scripsisti de me, Thoma: quam mercedem addipies? Non aliam, nisi te Domine.
Escreveste bem de mim Tomás: que queres que te dê? Nada senão a Vos ò Senhor.

Urge portanto fazer um esforço, quer intelectual quer de vontade, para reorientarmos as nossas prioridades: antes de tudo está Deus e a Esperança (que é uma virtude teologal) de O possuir. Ou seja
Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo. Mt 6, 33


Também a Virgem Maria é chamada a Sede de Sabedoria, que ela nos alcance esse excelente bem que deveriamos todos querer!

quarta-feira, 20 de julho de 2011

O Saldo do comunismo: Cem milhões de mortos!








Fala-se muito das mortes causadas pela(s) religiões, em especial na Idade Média. Neste período, as Inquisições tanto a Católica como a Protestante supostamente mataram milhões de inocentes.

Mas, do que ninguém fala é do fenómeno equivalente no século XX que matou de uma forma hedionda um numero muitíssimo maior de pessoas.

Comecemos pelo princípio: as estimativas de população mundial que podem ser encontradas aqui no Department of Economics, U.C. Berkeley podem ser resumidas no gráfico seguinte:

´

Note-se que a população mundial era 265 milhões por volta do ano 1000, 425 milhões por volta do ano 1500, 720 milhões por volta de 1750. Estamos a falar de estimativas para a população mundial, não para a população da Europa onde propriamente se desenrolou a Inquisição. Podem encontrar-se estimativas da população europeia na Idade Media aqui nas páginas dum projecto interessantíssimo chamado Medieval Sourcebook.

Se agora, combinarmos isto com o excelente artigo de R.J. Rummel da Universidade do Havai, que está aqui e lermos que o comunismo no século XX matou 100 000 000 isto é cem milhões de pessoas, vemos o absurdo que é comparar as duas coisas!

O comunismo matou o equivalente a 37,7% da população mundial no ano 1000, 23,5% da do ano 1500 e, 13,9% da população do ano 1750!

Se usarmos as tabelas para a população europeia acima mencionadas, vemos que o total da população europeia (incluindo a Europa de Leste) era uns magros 73.5 milhões no ano 1340 e, 50 milhões no ano 1450! Logo, nem que os Inquisidores matassem a população europeia total não chegariam a cifra horrenda de 100 000 000 que nos é dada acima para as mortes causadas pelo comunismo!

Claramente não faz sentido comparar as duas coisas!

Mas mesmo que nos limitemos a comparar o comunismo com as outras forma de governo no sec. XX vemos do gráfico seguinte que este é muito mais pernicioso e assassino:



Mas o Autor responde à pergunta de porque é que o comunismo é tão mortífero, diz o seguinte:

Mas os comunista não podiam estar enganados. [ironia do autor] Afinal de contas, o seu conhecimento era científico, baseado no materialismo histórico, uma compreensão do processo dialéctico na natureza e na sociedade humana, e numa visão da natureza materialista (e por tanto exacta). Marx mostrou empiricamente onde a sociedade esteve e porquê, e ele e os seus interpretes provaram que esta estava destinada para um fim comunista. Ninguém pediria impedir isto, mas somente obstruir e atrasar-lo a custo de mais miséria humana. Aqueles que discordaram com esta visão do mundo e, mesmo com algumas das interpretações próprias de Marx e Lenine estavam sem sobra de dúvida, errados. Afinal de contas não disseram o Marx o Lenine o Estaline ou o Mao que... Por outras palavras o comunismo era como uma religião fanática. Tinha o seu texto revelado e principais interpretes. Tinha os seus sacerdotes e a sua prosa ritual com todas as respostas. Tinha os seu paraíso e o comportamento certo para lá chegar. Tinha o seu apelo de crença. Tinha também as suas cruzadas contra os não crentes.


Isto diz o autor do artigo, eu acrescento: Não tinha também algo muito importante, Deus! Naão tina a Suma Bondade que negava fanaticamente, não tinha a Suma Felicidade porque a buscava na humanidade e, não tinha a Suma Verdade porque julgava (herança iluminista e positivista), que a verdade é material e assim encontro a corruptibilidade a mutabilidade e a imperfeição própria das coisas materiais!

Não tinha Aquele que disse: Eu Sou o Caminho a Verdade e a Vida! Não tinha porque não poida ter o: Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei! Assim, fez o que lhe é próprio matou cem milhões!...

quarta-feira, 6 de julho de 2011

A aceleração para o nada!




O pecado, que no dizer de São Tomas é aversio a Deo et conversio ad criaturas, que é o “afastamento” de Deus e o voltar-se para as criaturas. Ora este processo tem uma dinâmica, tato para as pessoas como para a Humanidade. Aqui faço uma tradução pessoal e muito própria de uma parte do Epílogo do livro “A vida eterna” de Reginald Garrigou-Lagrange, O.P.



No sentido próprio, são as pessoas que estão em descaminho e não as ideias. Sob perturbação fisiológica e psíquica os Homens tornam-se insensatos. E quanto maior for a sua inteligência, mais cresce esta insensatez, a sua proporção corresponde às suas faculdade e à sua cultura. A insensatez religiosa (NT. aquela que diz respeito a verdades religiosas) é insensatez mais difícil de curar, porque não há apelo a um motivo mais elevado. A inteligência entrou em descaminho nos seus mais altos patamares, ilude-se a si mesma habitualmente (NT no sentido de continuamente), particularmente nas suas ideias acerca de Deus, a Justiça infinita de Deus, a Misericórdia de Deus.
Ideias grandiosas pervertidas: ideias religiosas sem centro e equilíbrio. Isto resulta quando os Homens substituem a Fé em Deus, pela fé na Humanidade, tão cheia de aberrações. A Fé, iluminada pelo Espírito Santo, pelos dão da inteligência e da sabedoria, torna-se o princípio da contemplação mística. Mas a fé, onde degenera, torna-se o princípio do falso misticismo, cujos devotos embevecidos pelo progresso da Humanidade, como se este progresso nunca fosse sofrer revezes, mais como se este progresso fosse o próprio Deus, que se torna ele próprio em nós. A Renan foi feita a pergunta: Deus existe? E a sua resposta foi: Ainda não. Ele não viu que esta resposta era um blasfémia.
A Antiguidade Clássica não sofria desta completa falta de equilíbrio. Depois da antiguidade veio a Cristandade, veio a elevação sobrenatural do Evangelho. Depois quando o Homem abandonou a verdade cristã, a sua queda foi acelerada pela altura de onde caiu.
Esta separação começa com Lutero, que negava o [valor] do Sacrifício da Missa, a validade da absolvição sacramental e da confissão, a necessidade de observar os mandamentos de Deus para ser salvo. A queda foi apressada pelo enciclopedista e filósofos do século XVIII, pelo cristianismo corrompido de J. J. Rousseau, que roubou ao Evangelho o seu carácter sobrenatural e reduziu a religião a um sentimento natural, que pode ser encontrado, com maiores ou menores diferenças, em todas as religiões. Estas ideias foram espalhadas por toda a parte pela Revolução Francesa. Indo mais longe, Kant defendeu que a razão especulativa não pode provar a existência de Deus. Seguiram-se Fichte e Hegel que ensinam que Deus não existe acima da Humanidade, mas que se torna Deus em nos e por nossa acção, que Deus mais não é do que o progresso da Humanidade, tal como se este progresso não fosse acompanhado de tempos a tempos por um terrível recuo para a barbárie.
Entre o Cristianismo e estes terríveis erros levantou-se um sistema chamado liberalismo (NT liberalismo social), um posto intermédio, que não conclui nada, não dá motivo suficiente para a acção. O liberalismo é substituído pelo radicalismo, depois pelo socialismo, e finalmente pelo comunismo materialista e ateu. A negação de Deus e da religião, da família da propriedade, e da pátria: todas se seguem de perto. O comunismo desagua na servidão universal sob a mais terrível das ditaduras. A aceleração é tão válida nos processos mentais como o é nos corpóreos.


Quando o autor (Reginald Garrigou-Lagrange) fala de loucura ou de insensatez religiosa não tem, a meu, ver por objectivo criticar outras religiões. De facto noutro lugar desta obra ele defende que a todos os Cristãos e, mesmo pasme-se, a alguns pagãos com boas disposições e, que são ignorantes não por culpa mas porque nunca lhes foi anunciado o Evangelho, Deus salva segundo a sua Liberdade e a sua Misericórdia. A critica, é doutra maneira dirigida àqueles que julgam que a capacidade técnica numa área qualquer do saber humano, lhes dá o direito de opinar sobre assuntos de ordem Religiosa. A essas pessoas deve lembrar-se que a Teologia é uma Ciência de pleno direito. Deve lembrar-se-lhes que assim como alguns deles são por exemplo físicos (como eu sou) e, que vêm com maus olhos que aqueles que não têm formação específica falem da sua área de especialidade, também existe gente muito bem formada em Ciências Religiosas e Teologia, que aliás eram ciências antes da física o ser!
Deste falava no Evangelho Jesus quando “estremeceu de alegria sob a acção do Espírito Santo e disse: «Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado».” Lc 10, 21
Está “dinâmica” do afastamento de Deus leva, da Existência, do Ser, da Verdade, para a ausência de tudo isto que é o nada! De facto quem se desvia de Deus desvia-se daquele que É e que concede a existência d’Aquele que “disse e tudo foi feito” que “ordenou e tudo foi criado” Sl 33, 9. Dirige-se, caso não se converta, inexoravelmente para o nada, ou para “trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes” Mt, 8, 12.

E, é claro que, quanto mais tempo as pessoas individuais ou, a Humanidade permanecer nesta aceleração, tanto mais difícil será para-la e, tanto mais fundo se terá mergulhado donde a ascensão será mais penosa.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Agnosticismo: o medo do compromisso!





A citação do Catecismo da Igreja Católica no meu último post, falava em preguiça em indiferentismo e, em fuga, para descrever uma atitude - o agnosticismo - que nega totalmente a possibilidade de conhecer Deus, a alma e toda a realidade metafisica em geral.

Estes termos, indiferentismo, preguiça, fuga, estão no campo semântico de outros tantos como adormecimento, torpor, sonolência, laxismo, lassidão e, até talvez o extremo de trauma e, medo. Assim, neste post, desejo dar a minha opinião acerca daquilo que constitui o agnosticismo do ponto de vista psicológico e, social.

A psicologia e a sociologia, são duas Ciências Sociais de pleno direito, com uma epistemologia muito diferente daquela que poderia ser invocada a propósito das Ciências Naturais. Muitos autores definiram, ou melhor tentaram definir, esta epistemologia como uma teoria crítica, em oposição a um mero carácter positivo do conhecimento. Parte desta epistemologia, quer se lhe chame, teoria crítica que não, é a multidisciplinaridade quer dizer: um problema que diga respeito a pessoas e sociedades, deve ser tratado sob o ponto de vista simultâneo de varias disciplinas. No nosso caso temos a sociologia e a psicologia, numa interacção segundo a qual num dos termos temos o comportamento de grupo e, no outro do comportamento individual respectivamente. Tudo isto, claro, é ainda simplificado pois o objectivo deste post não é discutir a epistemologia das Ciências Sociais.

Assim, parece-me que no extremo psicológico, há uma razão principal para a emergência do agnosticismo, é o medo do compromisso. Tanto a fé num Deus criador como negação peremptória desse mesmo Deus, acarretam responsabilidades. Começo pelo caso do ateísmo, a negação completa de Deus, implica "que tudo se joga aqui", como dizia Paulo Flores D'Arcais no livro Deus Existe?





Mas, esta posição frontal (que exige coragem) é demasiado difícil para o típico individuo contenporaneo! Este preferiria, caso fosse possível, jogar nas duas equipas - assim ganharia sempre! Esta posição exige do Ser Humano o comprometimento completo com este mundo e a sua ordem material, mutável e, incerta. Ora é de um problema de comprometimento que estamos a falar!

Quanto à posição oposta, é bem sabido que um dos primeiros deveres da Fé é a obediência, ob audire, quer dizer: quem ouve a Palavra de Deus deve agir em consonância com o que ouve caso contrário não adianta nada... CIC 144 É claro que esta obediência é livre e racional e, também é claro que Jesus disse "o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve" (Mateus 11:28-30), mas para o Homem de hoje nada disso parece ter efeito. Logo que se lhe fala em "Não mater"; "Não cometer adultério", "Não adorar outros deuses" etc, ele treme de medo porque julga que é levando uma vida hedonista que será feliz!.. Julga que se ganhar a lotaria, não trabalhar, se tiver quantas mulheres (respectivamente homens) quiser, que se não tiver que se preocupar com comer e pagar as contas, porque tem em abundância, que isso o fará feliz!

E pronto, psicologicamente este medo do comprometimento conduz a uma espécie de trauma. Logo que se fala em matrimónio indissolúvel e monogâmico, ou no celibato dos Padres; quando se fala em ter filhos em vez de fazer abortos; quando se fala em sofrimento de qualquer tipo, o Homem contemporâneo, hedonista treme de pavoroso horror! Mas por outro lado, a ideia de perseguir a Igreja e, de a destruir activamente (como na Rússia) felizmente também já não colhe aquela massa de adeptos fervorosos de outrora.

O Homem de hoje deseja sentar-se no muro e não decidir. Eles que lutem uns com os outros e logo quando for preciso tomar uma decisão, logo se verá!



Tudo isto tem no entanto e, sempre na minha modesta opinião, que ver com o fenómeno social da liberdade mal entendida. Socialmente, a ênfase está na exaltação da liberdade, no sentido simples de se poder fazer o que se quiser. Ora na medida em que a Fé nos impõe regras mas, o ateísmo impõe outras tantas limitações, (como, a quem é o homem e a mulher comuns recorreriam quando algo muito grave se abatesse sobre eles? a Deus claro está), a visão das mulheres e dos homens de hoje leva-as(os) a não se pronunciarem sobre a existência de Deus! Ter liberdade para decidir! A "liberdade da consciência" ! Tudo isto brota numa má interpretação da liberdade (que é uma grande conquista da Humanidade) e, que deve mais correctamente ser olhada em paralelo com a responsabilidade. A liberdade é algo que nos foi dado com o objectivo de escolhermos o melhor não o pior. Embarcar numa corrida desenfreada de loucuras tresloucadas até à vertigem, não é tanto expressão da liberdade como do pouco critério e, até se me permitem da irracionalidade. Esses dizem: "A minha liberdade, a minha liberdade! Têm-na e não a seguem;" São Josemaría Escrivá, em Amigos de Deus.


É claro que o problema é de certeza mais complexo e, terá muito mais matizes. Uma excelente proposta está aqui. Mas, seja como for, um medo psicológico de qualquer compromisso aliado a uma insistência numa liberdade que é entendida como libertinagem, parecem-me as causas mais evidentes de para não querer lidar com o problema da existência de Deus e dizer-se agnóstico.

Em tudo quanto acabo de dizer falo do homem e da mulher comum, quer dizer da rua, não do filósofo, nem do intelectual. Para alguns desses (não todos claro, porque a razão não é má, se fosse caiamos num fideismo) o problema está noutro lado, na auto-idolatria, no orgulho que não os deixa ver nada superior a eles próprios! Mas isso fica para um próximo post.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O crepúsculo do iluminismo:




Todos nós já tivemos a experiencia de estar num debate, ou numa qualquer conversa com alguém que procura defender o indefensável. Acontece também que, a maior parte das vezes essa pessoa chega a um ponto no qual se recusa simplesmente a abordar a questão, procura pelo contrário desvaloriza-la, reduzi-la a um mal-entendido, ou tenta dar-nos razão sob um ponto de vista menor e, com uma argumentação falaciosa. Neste momento, dizemos para nós próprios: “não quer debater porque sabe que está errado” !.. E, não raras vezes, é verdade! Quer seja consciente ou inconscientemente o nosso interlocutor sabe serem falsos os seus pressupostos e conhece a futilidade da sua argumentação.

Pois bem. Esta é exactamente a situação (na minha opinião claro), no que diz respeito aos limites da razão, discussão intemporal mas que nos séculos XVII e XVIII foi levada a extremos inauditos. Neste período histórico, certos pensadores, tais como Rousseau, Montesquieu, Voltaire, Locke, Diderot, só para mencionar alguns, proclamaram (não todos juntos obviamente porque o Iluminismo foi um movimento social complexo), que a Idade das Trevas havia terminado e, que doravante o Homem seria libertado das superstições (entre as quais a Religião seria uma das principais) e, entraria numa fase de progresso impulsionada pela Razão!

Cientificamente, eles partiam daquilo que na mina opinião são sucessos alheios! Quero dizer com isto que, as figuras concretas nas quais eles se inspiraram para proclamar o primado da razão, que foram Galileu, Kepler e, Newton, eram todos homens profundamente crentes! Galileu, para esclarecer um mal entendido, era Católico devoto, apesar da célebre e complexíssima questão que o opôs ao Santo Oficio. Kepler havia estudado com o fim de ser Sacerdote e desejava continuar os seus estudos para aprender Teologia e, Newton acreditava em Deus e escreveu até extensamente sobre o assunto! Estes homens em especial o brilhante Isaac Newton, partindo das evidencias científicas ao seu dispor, erigiram uma visão mecânica do mundo, que contrastava com a visão orgânica de inspiração aristotélica/tomista e, que havia influenciado a Europa durante séculos. Desta visão mecânica – que vê os fenómenos como peças de uma máquina – até uma concepção totalmente mecanicista – que julga que o mundo são só essas peças – o caminho foi curto e rápido! Muito rapidamente, a arrogância do "Je n'avais pas besoin de cette hypothèse-là" laplaciano fez-se soar, com estridente ribombar, marcando a aparente inutilidade da hipótese de deus!

O projecto iluminista/racionalista, os dois termos não são o mesmo mas estão muito relacionados, consistia em tornar a razão o único bloco do conhecimento da realidade. Mas como esta parte sempre de pressupostos, este projecto acabou na negação de tudo no niilismo. Como afirmou João Carlos Espada, um dos problemas “reside na colossal ambição do racionalismo dogmático que subjaz ao ateísmo: a de que a razão pode fornecer pressupostos isentos de pressupostos. Mas a razão não consegue explicar porque existe algo em vez de nada. ” in Expresso 21.04.07.

Neste lastimável estado de coisas, chegou-se ao século XIX. Aí (a par com um projecto positivista completamente megalómano), a razão lançou as sementes, para o ocaso da razão! Quero dizer, os descendentes intelectuais e seguidores de quantos tinham no iluminismo proclamado em altos brados não só o primado mas também a total hegemonia da razão, passaram a defender agora que uma parte do real não é racionalmente escrutinável!

Defende-se agora, que Deus já não é uma hipótese inútil, mas alguém que não se pode conhecer pela razão. O credo agnóstico é este: não nego nem afirmo a existência de Deus! De facto, o “ agnosticismo pode, por vezes, encerrar uma certa busca de Deus. Mas pode igualmente representar um indiferentismo, uma fuga perante a questão última da existência e uma preguiça da consciência moral. Com muita frequência, o agnosticismo equivale a um ateísmo prático. ” Catecismo da Igreja Católica 2128.

Este problema, o do agnosticismo, que tem ramificações múltiplas e variadas, pode ser analisado de vários ângulos: do ponto de vista filosófico; como um fenómeno social; nas suas causas psicológicas, etc. É exactamente este itinerário que nos propomos fazer nos próximos posts.

Espera-se assim lançar alguma luz, sobre um problema que tanto afecta a sociedade actual e, que do nosso ponto de vista assenta no medo do compromisso, numa sociedade desestruturada e, num medo paralisador de qualquer compromisso pessoal.